Luiz Saidenberg.
O personagem Zé Candango foi criado por José Geraldo em tiras publicadas no Jornal do Brasil no início dos anos 1960. Nos anos 1970, um dos desenhistas de Zé Candango, o gaucho Renato Canini (acima), uniu-se ao roteirista paulista Ivan Saidenberg para dar nova vida a um outro Zé famoso: o Zé Carioca.
A CETPA logo mudou-se para uma moderna e ampla sobreloja no número 932 da rua da Praia, um prédio novinho em folha. Meu trabalho havia acabado e José Geraldo arrumou-me um cargo lá, com um pequeno salário. Shima e eu gostávamos de perambular pela noite, o que se tornou um problema para seu Júlio, o dono da pensão, que ia se deitar sempre às 23 horas. Algumas vezes nós o acordávamos, e ele vinha resmungando. Outras vezes, tínhamos mesmo que passar a noite na rua, como em uma vez em que tivemos que dormir nas cadeiras da CETPA velha. Resolvemos nos mudar para a pensão do senhor Blom, uma pensão menor e mais moderna. Nela, o quarto dava para a rua, com uma sacada sobre a escadaria. Foi naquela época a crise dos mísseis em Cuba, que quase levou o mundo para as cucuias. E a Copa de 62, quando pela primeira e única vez ganhei um bolão de apostas. Lembro-me da festa da conquista, na praça da Alfândega.
O índio guarani Sepé Tiaraju tenta explicar aos emissários espanhóis que seu povo nada tem a haver com a disputa entre Portugal e Espanha pela posse do território das Missões. Lições de nativismo e história no argumento e traço primorosos do carioca Fávio Colin.
Na Cooperativa, no entanto, tudo o que eu via era demagogia e politicagem. Os desenhistas, menosprezados e esquecidos, eram só peças decorativas, mera fachada para sacanagens políticas. Nas entrevistas, José Geraldo só pensava em se promover, repetindo sempre, como num disco gasto, as mesmas frases demagógicas. Seu contato com Brizola, o Assessor de Imprensa Hamilton Chaves, foi supreendentemente simpático comigo e com Shima, chegando a nos levar para jantar em sua casa. Na CETPA, ao contrário, desfilavam figurões locais, intelectuais e políticos, que não nos eram apresentados e que, do alto da importância que julgavam ter, não cumprimentavam ninguém. Por trás daquela fachada "idealista" corriam grandes negócios, propaganda política, importação de máquinas, mulheres para José Geraldo e seus figurões.
Shima, a essa altura, já estava descontente com o pagamento e com a demagogia de José Geraldo. Seu trabalho demandava muita pesquisa, e não rendia. O novo gerente da CETPA se chamava Rubem Schneider, era gordo, forte e, embora jovem, completamente calvo. Defendia o dinheiro da CETPA como uma galinha sobre a ninhada. Suas contas com Shima não bateram, Rubem queria pagar para menos, e os dois discutiram. Com sua habitual truculência, José Geraldo tomou as dores do gerente, dizendo a Shima algo do tipo "está me chamando de ladrão?". José Geraldo sempre fora fanfarrão, gabando-se das surras que teria dado em seus desafetos. Mas, quando o baixinho Shima o desafiou a resolver o caso na rua, ele surpreendentemente "medrou", diante do samurai enfurecido. Aborrecido, Shima retornou a São Paulo. Eu, estupidamente, fiquei.
Porto Alegre, no final dos anos 1950.
Decepcionado com a CETPA, eu girava quilômetros por Porto Alegre a pé, ia ao cinema durante o expediente, fazia o possível para não ficar muito tempo na Cooperativa. Estava já confrontando José Geraldo. Lembro-me de ter recusado a refazer, por capricho dele, uma história de Flávio Luís Teixeira. Voltei à pensão do seu Júlio, arrastando minha mala escadaria acima. Lá fiquei até o fim, fazendo novas amizades. Enquanto isso, José Geraldo alardeava sua última façanha: ele teria nocauteado com um soco a Hector Guaglione (o cupincha de Don Villone) que, sabrá Diós por que, no calor de uma discussão, teria tentado sacar a arma que sempre carregava em sua pasta.
O clima na CETPA tinha chegado a um ponto de insuportabilidade total. Flávio Luís saiu, foi tentar iniciar com seu amigo Bornéu uma pequena agência de propaganda. Fui trabalhar nesse escritório por três dias. Então, voltei à CETPA e pedi as contas. José Geraldo estava furioso comigo, e queria me demitir. Como roubei-lhe esse gostinho, ficou mais furioso ainda. O escritório onde estávamos, num andar alto da Vigário José Inácio, era mais uma vez de Don Villone, sempre "muy amigo". Praticamente tínhamos apenas um cliente, o Banco da Família Brasileira. O gerente de propaganda Cauby, que conheceramos na CETPA, era jovem e simpático o bastante para confiar numa "agência" incipiente, coisa inconcebível hoje em dia. Fizemos uma animação table-top que passou na TV, mais um anúncio e depois... nada. Porto Alegre, 40 graus! Após o almoço, eu me debruçava na mesa, sem ânimo para nada. Aproximava-se o fim do ano, e também de nossas esperanças. O pouco dinheiro que eu tinha juntado, emprestei a Bornéu para iniciar o negócio, e nunca mais vi sua cor. Na véspera de Natal, consegui uma passagem de ônibus para São Paulo. Não tinha dinheiro nem para um presente para minha mãe. Fim de ano em São Paulo. A chuva fina encharcava até a alma. Mesmo assim, ainda voltei a Porto Alegre. Eu não percebia, mas como era teimoso naquela época! Era o princípio de 1963, e o desespero começou a me vencer. Então, como aconteceria outras vezes em minha vida, uma sorte milagrosa se manifestou. Tocou o telefone, era meu irmão Ivan com boas notícias. Lyrio Aragão agora trabalhava na agência McCann-Erickson de São Paulo, e precisava de um parceiro nos story-boards. E o salário, embora de simples assistente de arte, era quase o mesmo de José Geraldo, presidente da CETPA. Outra fase de minha vida estava começando, e essa fase nos quadrinhos terminava. Deixei Porto Alegre num começo de noite, véspera de Carnaval. Flávio Luís e a esposa me acompanharam ao ônibus, numa despedida emocionada.
Voltei lá 40 anos depois, com minha esposa Márcia. A chegada ao aeroporto já foi um choque: cadê o que eu lembrava, o saguão escuro, os murais de Ianelli sobre a história da aviação? O bom casal Canini (Renato e Lourdes) veio nos pegar no hotel para uma via-sacra de reconhecimento. Subimos a escadaria para a rua Duque de Caxias, toda diferente, nada do que eu lembrava. Cadê o armazém do Cavalheiro Lima, as casas da cidade baixa, a pensão do Sr. Blom sobre a escadaria? Tudo ocupado por prediozinhos, por sinal já bem envelhecidos. E a pensão do seu Júlio, lá em cima? Nada, seu trecho foi todo arrasado por um viaduto sobre a avenida João Pessoa. O fim da Duque de Caxias desapareceu. Eu caminhava por ela e não reconhecia nada, até chegar ao viaduto sobre a Borges de Medeiros. Ali deu estalo de vieira e minha memória se acendeu. Tudo estava ali: a catedral, o palácio Piratini, o obelisco, o teatro. Muito pouco havia mudado, mas a CETPA velha não existia mais. No dia seguinte, eu e Canini encontramos o argentino Bendatti, já bem velhinho. Fomos, como três mosqueteiros, rever a CETPA da rua da Praia, agora ocupada por outros escritórios e bem longe da imponência e frescor originais. Só o bar, em baixo, continuava o mesmo. Porto Alegre renascia em minha memória, mas para onde fora a angústia, o mistério e a paixão daquela época?
Voltando ao aeroporto com os Canini, compreendi porque o achara tão diferente. Era outro! O antigo ficara intacto, mas esquecido, a um canto da pista. Daquele meu tempo, só ficara mesmo a estátua do Laçador, para nos dizer adeus.

Color
Porto Alegre. A avenida Borges de Medeiros no início dos anos 1960.
No alto: capa de Saidenberg para uma edição do Aba Larga, personagem desenhada por Getúlio Delphin (centro); e a capa da História do Cooperativismo, quadrinisada por Saidenberg.