Teor Letal: CETPA (Sexo, Mentiras e HQ)
Luiz Saidenberg.
Início de 1962. Jardins da Igreja de Santa Terezinha no Bairro de Santana, São Paulo. Saidenberg, Shoji Ito e Shimamoto, no dia do casamento do alfaiate João Dias.
por Luiz Saidenberg

(Legendas das ilustrações por Olendino)

Ironia das ironias: o movimento pela nacionalização dos Quadrinhos ganhou grande força durante o governo nacionalista do Presidente Jânio da Silva Quadros. O sucessor de Jânio, João Belchior Marques Goulart, assinaria em 23 de setembro de 1963 o Decreto 52.497 que determinava: "As empresas editoras de Histórias-em-quadrinhos deverão publicar material nacional nas seguintes proporções mínimas: 30% (trinta por cento) a partir de primeiro de janeiro de 1964; 40% (quarenta por cento) a partir de primeiro de janeiro de 1965; e 60% (sessenta por cento) a partir de primeiro de janeiro de 1966."
Some-se à debilidade do texto do decreto (não previa sanções caso não fosse cumprido) o clima de insolvência das instituições na época e facilmente concluiremos o motivo de tal Lei jamais ter sido cumprida. Antes disso, no ano de 1962, o governo populista de Leonel Brizola criou no Rio Grande do Sul a Cooperativa Editora de Trabalho de Porto Alegre (CETPA), para a qual trabalharam vários dos colaboradores da Editora Outubro, entre eles o jovem e persistente (ele prefere dizer "teimoso") Luiz Saidenberg.
Estávamos no início de 1962 e a situação estava complicada. O movimento pela nacionalização dos quadrinhos tinha terminado com a renúncia de Jânio e o boicote das editoras ao nosso trabalho. Setores da sociedade, encabeçados pelos ministros das forças armadas, tentaram impedir a posse do vice João Goulart e impuseram a emenda constitucional que instituia no Brasil o regime parlamentarista. Tinha havido o Movimento pela Legalidade, no sul, e monstruosos "brucutus" rodavam pelas ruas próximas do prédio Martinelli, prenunciando os dias muito mais sombrios que viriam.
Desfeito o nosso Estúdio (veja em Mais Páginas Amarelas), Shimamoto e eu fomos abrigados na sala de Shoji Ito, nosso vizinho cego que vendia materiais de limpeza. Mas quase não tínhamos mais trabalho para fazer. Alguns colegas já haviam partido para atividades mais sólidas. Almir Bortolassi foi para a agência JW Thompson. Igayara juntou-se a Jorge Kato na Editora Abril, onde começaria vitoriosa carreira nas revistas Disney.
E nós, que faríamos? Meu irmão Ivan e eu, com a venda de nossa casa em Campinas, tínhamos comprado um sobradinho na alameda dos Guatás, no Planalto Paulista, e restavam as prestações para pagar.
Foi então que José Geraldo Barreto Dias apareceu no Martinelli.
Criadores e criaturas na CETPA: Shimamoto e sua História do Rio Grande do Sul, Canini e seu Zé Candango, e o saudoso Flávio Luís Teixeira, com seu Piazito.
Tínhamos conhecido José Geraldo no programa "Brasil 61" de Bibi Ferreira, na TV Excelsior. Muito falante e persuasivo, em sua visita ele nos convenceu de que a CETPA era uma boa oportunidade para todos nós. José Geraldo queria que Shima executasse um ambicioso projeto da História do Rio Grande do Sul, e isto teria que ser feito lá, com roteirista e historiadores gaúchos. A mim, ele encomendou umas páginas sobre o Movimento da Legalidade. Lembro-me de ter usado como referência umas fotos de Brizola com seus oficiais na sacada do Palácio Piratini. Terminei a história e fui, com Gedeone Malagola, conhecer a CETPA. Foi minha primeira viagem de avião.
Após passar uma noite no lendário Hotel Magestic, na rua da Praia (onde hoje funciona a Casa de Cultura Mário Quintana, seu hóspede mais ilustre), fomos à CETPA velha, numa ruazinha perto do Largo da Matriz. Era um prediozinho velho, com escritório voltado para a rua, ao qual se tinha acesso por um lance de escadas. Na verdade ali era a sede de uma agência de viagens. Seu locatário era Dom José Maria Villone, um argentino grandalhão que beirava os cinqüenta anos de idade (anos mais tarde, comentaram comigo que ele teria sido ministro do ditador Juan Domingo Perón, mas na verdade ele foi sim, em meados dos anos 1970, Ministro de Imprensa na presidência de Maria Estéla Martínez de Perón, a Isabelita, viúva do caudilho). Villone organizava pacotes turísticos para a praia de Capão da Canoa. Pelas paredes, tinha velhas fotos suas ao lado de astros de Hollywood, como resquícios de tempos melhores. Ele emprestara seu escritório à CETPA, tornando-se seu gerente. Um seu amigo, também argentino, era mais uma figura pitoresca da paisagem. Ele se chamava Menotti Hector Guaglione, era alto, gordo, calvo, com o beiço caído, e não tinha atividade definida. Creio que fazia contatos, ou pelo menos aparentava fazê-los. Fazia calor em Porto Alegre, estávamos no mês de abril ou maio e eu, ignorante sobre o clima, tinha ido até lá com um terno de lã. Tomei então uma decisão infeliz, que hoje eu não repetiria: sem outras perspectivas de trabalho, decidi aderir á CETPA. Retornei a São Paulo para pegar minhas coisas e voltei a Porto Alegre num velho DC-3. José Geraldo quis que eu me hospedasse com Hector, mas esse astutamente me conduziu a uma pensão, popular entre os jornalistas do Última Hora. A pensão foi indicada por Anibal Bendatti (outro argentino), que iria desenhar seu personagem Lupinha, para a Cooperativa. A pensão ficava no final da rua Duque de Caxias, onde ficam o Palácio Piratini e a catedral. Era uma velha casa parda, depois do viaduto sobre a avenida Borges de Medeiros. O dono da pensão, seu Júlio, crioulo robusto e simpático, era gaúcho "lá de fora", Lagoa Vermelha ou algo assim. Eu e José Geraldo fomos receber Shima no velho e escuro aeroporto Salgado Filho. Nós dois ocuparíamos um grande quarto no segundo andar da pensão, que parecia um grande galpão, ou um navio ancorado na Duque de Caxias, como o Bateau Lavoir dos tempos duros de Picasso em Montmartre.
Além de Bendatti, cuja esposa era também jornalista, fiz amizade com o saudoso Flávio Luís Teixeira e o quietíssimo Renato Canini, grandes desenhistas locais. Flávio desenharia o Piazito, e Canini o Zé Candango, com roteiro de José Geraldo. Colin (que não saiu do Rio) desenharia as histórias do índio Sepé, Getúlio Delphin o Aba Larga, e Thierry, grande pintor, faria algumas capas.
Logo, Shima partiria para complicadas entrevistas com historiadores locais. Pretendia fazer um trabalho rigoroso e bem documentado. Lembro-me andando com ele nas ruas, sua figura exótica causando espécie. Não havia (e me parece que não há) orientais por lá, e as pessoas murmuravam "olha! um chinês!".
Color
Desenhos de Luiz Saidenberg
José Geraldo Barreto, no traço de Saidenberg.
Anúncio das publicações da CETPA.
"Brucutus"(1) nas ruas, o programa de variedades Brasil 61, e Leonel Brizola, primeiro à esquerda(2) sentado, falando na TV Rio contra a invasão de Cuba pelos EUA. Numa época de intensa guerra ideológica, os meios de comunicação, incluindo os quadrinhos, tinham importância estratégica.
(1) Carros de combate adaptados para dispersar comícios e passeatas.
(2) Trocadilho não intencional.