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Tínhamos conhecido José Geraldo no programa "Brasil 61" de Bibi Ferreira, na TV Excelsior. Muito falante e persuasivo, em sua visita ele nos convenceu de que a CETPA era uma boa oportunidade para todos nós. José Geraldo queria que Shima executasse um ambicioso projeto da História do Rio Grande do Sul, e isto teria que ser feito lá, com roteirista e historiadores gaúchos. A mim, ele encomendou umas páginas sobre o Movimento da Legalidade. Lembro-me de ter usado como referência umas fotos de Brizola com seus oficiais na sacada do Palácio Piratini. Terminei a história e fui, com Gedeone Malagola, conhecer a CETPA. Foi minha primeira viagem de avião.
Após passar uma noite no lendário Hotel Magestic, na rua da Praia (onde hoje funciona a Casa de Cultura Mário Quintana, seu hóspede mais ilustre), fomos à CETPA velha, numa ruazinha perto do Largo da Matriz. Era um prediozinho velho, com escritório voltado para a rua, ao qual se tinha acesso por um lance de escadas. Na verdade ali era a sede de uma agência de viagens. Seu locatário era Dom José Maria Villone, um argentino grandalhão que beirava os cinqüenta anos de idade (anos mais tarde, comentaram comigo que ele teria sido ministro do ditador Juan Domingo Perón, mas na verdade ele foi sim, em meados dos anos 1970, Ministro de Imprensa na presidência de Maria Estéla Martínez de Perón, a Isabelita, viúva do caudilho). Villone organizava pacotes turísticos para a praia de Capão da Canoa. Pelas paredes, tinha velhas fotos suas ao lado de astros de Hollywood, como resquícios de tempos melhores. Ele emprestara seu escritório à CETPA, tornando-se seu gerente. Um seu amigo, também argentino, era mais uma figura pitoresca da paisagem. Ele se chamava Menotti Hector Guaglione, era alto, gordo, calvo, com o beiço caído, e não tinha atividade definida. Creio que fazia contatos, ou pelo menos aparentava fazê-los. Fazia calor em Porto Alegre, estávamos no mês de abril ou maio e eu, ignorante sobre o clima, tinha ido até lá com um terno de lã. Tomei então uma decisão infeliz, que hoje eu não repetiria: sem outras perspectivas de trabalho, decidi aderir á CETPA. Retornei a São Paulo para pegar minhas coisas e voltei a Porto Alegre num velho DC-3. José Geraldo quis que eu me hospedasse com Hector, mas esse astutamente me conduziu a uma pensão, popular entre os jornalistas do Última Hora. A pensão foi indicada por Anibal Bendatti (outro argentino), que iria desenhar seu personagem Lupinha, para a Cooperativa. A pensão ficava no final da rua Duque de Caxias, onde ficam o Palácio Piratini e a catedral. Era uma velha casa parda, depois do viaduto sobre a avenida Borges de Medeiros. O dono da pensão, seu Júlio, crioulo robusto e simpático, era gaúcho "lá de fora", Lagoa Vermelha ou algo assim. Eu e José Geraldo fomos receber Shima no velho e escuro aeroporto Salgado Filho. Nós dois ocuparíamos um grande quarto no segundo andar da pensão, que parecia um grande galpão, ou um navio ancorado na Duque de Caxias, como o Bateau Lavoir dos tempos duros de Picasso em Montmartre.
Além de Bendatti, cuja esposa era também jornalista, fiz amizade com o saudoso Flávio Luís Teixeira e o quietíssimo Renato Canini, grandes desenhistas locais. Flávio desenharia o Piazito, e Canini o Zé Candango, com roteiro de José Geraldo. Colin (que não saiu do Rio) desenharia as histórias do índio Sepé, Getúlio Delphin o Aba Larga, e Thierry, grande pintor, faria algumas capas.
Logo, Shima partiria para complicadas entrevistas com historiadores locais. Pretendia fazer um trabalho rigoroso e bem documentado. Lembro-me andando com ele nas ruas, sua figura exótica causando espécie. Não havia (e me parece que não há) orientais por lá, e as pessoas murmuravam "olha! um chinês!".
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