Teor Letal: À espera no pondions
por Olendino
Em 1978 depois de Cristo, enquanto as pessoas "normais" iam ao cinema ver "Os Embalos de Sábado à Noite", recolhiam-se a suas casas para assistir "Dancing Days" ou "travolteavam" ao som dos Bee Gees, eu ainda estava hermitando em meu quarto, fazendo experiências com técnicas de narrativa em quadrinhos madrugada a dentro. Lembro-me de que era perto do dia de Finados. Como acontece no verão belorizontino, chovia e fazia frio. Vi no jornal Diário da Tarde as costumeiras fotos de cemitérios, as cotações do preço das flores, a notícia de que tinham invertido a mão de direção da rua Padre Eustáquio, no bairro de Carlos Prates, por causa de uma carreta que perdera os freios. Esse bairro antigo fica sobre uma colina (Belo Horizonte, para quem não sabe, é uma sucessão de colinas entremeadas por córregos). Na colina vizinha, fica o bairro do Bonfim com seu cemitério histórico. Naquele verão, eu tinha feito um estranho "passeio" a esse cemitério inaugurado antes mesmo que a cidade. Passei uma manhã andando entre as campas, apreciando as muitas esculturas em bronze e mármore criadas pelo talento dos irmãos Lunardi e por um gênio da estatuária em bronze, o vienense Johann Amadeus Muchiutt, que espalhou suas obras de arte pelo cemitério e pela cidade, notadamente nas esculturas da fachada da basílica de Lourdes, no bairro do mesmo nome.

Naquela manhã, fiz vários esboços das esculturas e criptas. No final, voltei-me para a colina vizinha. Lá estava, no alto, a imponente igreja de São Francisco das Chagas, cuja contemplação me enchia de melancolia. Ao lado da igreja fica o colégio Frei Orlando onde estudava então minha paixão do momento, a colegial de cabelos compridos, linda e inacessível como uma estrela. Perdi-me um pouco, observando as ladeiras íngremes, as casas antigas, o movimento dos carros. Tudo isso dava uma história.

"Ponto" nasceu assim. Como é comum em minhas hstórias, ela é apenas um fragmento de um universo bem maior. Deveria começar com a história de Martha Maria, professora que se casou com Ernesto Grör, um uruguaio que teve a triste idéia de refugiar-se no Brasil nos anos de chumbo. Uma noite, os homens de farda o buscaram em casa e ele nunca mais foi visto. Martha dedicou-se a procurá-lo, até que a morte de seus filhos a desanimou de vez.

Uma das experiências que fiz com a história foi a de identificá-la totalmente com a periferia da cidade de Belo Horizonte: os ônibus, as ladeiras íngremes, a arquitetura das casas... e o jeito de falar das pessoas. O "belorizontês" é um dialeto comum no centro-sul de Minas Gerais, onde as pessoas falam aglutinando as palavras e/ou omitindo as sílabas finais. Observem esse diálogo, comum nos "pondions" de "Berzonte" (pontos de ônibus de Belo Horizonte):
Nativo 1: -"Cessasiesseonspassavássi?"
Nativo 2: -"Passanão! Vintiumcinqüentaioiquepassa!"
Tradução: -"Você sabe se esse ônibus passa na (região da) Savassi?". -"Não, não passa. O da linha vinte e um cinqüenta e oito é que passa."

Ao contrário do que você pode pensar, tudo isso é dito sem pressa, com serenidade e cortesia.
Infelizmente, os revisores cariocas da Editora Vecchi não se mostraram grandes apreciadores do belorizontês, e fizeram várias intervenções no texto. Então, não se esqueça: onde, por exemplo, estiver escrito "lá em frente", o certo seria estar escrito "lainfrente", que é o mais correto. Cesmintenderam?

Como todas as histórias da época, Ponto foi desenhada em folhas de papel westerprint 90g e finalizada a nanquim com uma pena Iserlohm 515, uma pena pequena, longa e muito flexível, que possibilitava uma grande modulação no traço.

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