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por Luiz Saidenberg
(Introdução e legendas das ilustrações por Olendino)
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Coisas do Brasil: imagine, pouco mais de uma década depois de terminada a Segunda Grande Guerra, um grupo reunido ao redor de uma mesa de bar, na capital paulista. Imagine que nesse grupo há várias etnias representadas, gente de ascendência africana, italiana, espanhola, judaica, alemã, japonesa... um português que preferia fazer piadas, antes de ser vítima delas, e um lituano longilíneo de rosto quadrado, já um tanto alterado pelos fluidos etílicos. Mas alí não se falava em guerra. Todos se sentiam brasileiros felizes (inclusive o português e o lituano), comemorando o dia do pagamento na editora Outubro, e sua paixão comum pelas histórias-em-quadrinhos. E como naquela mesa de bar parecia haver de tudo, havia até mesmo alguém que não bebia: o jovem Luiz Saidenberg, quadrinista de técnica refinada, que afirma que na história do mundo não há desenhista que seja páreo para Alexander Gillespie Raymond.
Nem Michelangelo! Nem Leonardo! |
Em 1959, quando eu trabalhava na Tur-Art, pequena fábrica de flâmulas de Chico Rafaelli, fui levado por Almir Bortolassi à rua da Moóca, número 384. Havia alí, como hoje, um prediozinho quadrado com a fachada em tijolos, com uma grande porta de enrolar à frente e uma entrada lateral à esquerda, que levava aos escritórios do andar superior. Subindo por alí fui até a prancheta de Jayme Cortez. Aquele prédio era então a sede da editora Outubro.
A sala era decorada com capas coloridas de revistas de terror, Mazzaroppi, Fuzarca e Torresmo, entre outras. Cortez, aos 35 anos, era sempre irônico e mordaz. A sala de Miguel Penteado ficava mais ao fundo e era geralmente Cortez quem recebia os candidatos. Ele me pediu uma página como teste, que levei poucos dias depois (era sobre vikings, não me perguntem por que). Cortez foi direto: -"Já trabalhastes nisto?" Disse-lhe que não. Ele, generosamente, classificou meu trabalho como profissional.
No passo seguinte, ainda guiado por Bortolassi, fui visitar Gedeone Malagola. Gedeone tinha a maior produção, tanto de desenhos quanto de argumentos, que fornecia a outros. Tanto ele quanto Bortolassi, muito chegados, moravam pelas montanhas da zona norte. Peguei meu primeiro roteiro (um terror rural) e voltei à cidade, sonhando com fama e fortuna. Logo descobri a realidade: o trabalho era mal pago! Eu precisaria, como gedeone, produzir muito para tirar algum dinheiro e isso implicava em abdicar da qualidade, coisa impensável para um iniciante.
A sala 1922
À medida em que conhecia outros desenhistas, vi que muitos deles não tinham, como eu, um local próprio para trabalhar. Lyrio Aragão e Waldir Igayara apreciavam meu trabalho e gostaram de meu jeito tímido e modesto. Começamos a procurar, a pé e de bonde, um lugar para nos estabelecermos. Assim fomos parar no Edifício América, o famoso e decadente Martinelli. Nossa sala era grande, meio chanfrada. Tinha piso de tacos e algo semelhante a um balcão. As grandes janelas se abriam para o Anhangabaú, com a avenida São João se perdendo na distância.
Fizemos logo amizade com os vizinhos, o alfaiate João Dias e o cego Shoji Ito, que vendia materiais de limpeza. O edifício Martinelli era um mundo: havia lá moradores, bares, barbeiro, bilhar, o Sindicato dos Bancários, hotel, prostitutas e gays, cafetões e bandidos, e vendedoras que ofereciam café e algo mais. Para mim, recém saído das fraldas familiares, era um mundo espantoso.
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Acima: o investigador policial Waldyr Igayara de Souza (recentemente falecido) era o quarto integrante do estúdio. Mais tarde, ele se tornaria diretor editorial das revstas infanto-juvenis da editora Abril, onde nasceram ou foram recriados alguns dos personagens Disney mais queridos em nosso País, como Zé Carioca, Peninha e Biquinho.
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Decidimos convidar Shimamoto a entrar para o estúdio. Shima era a figura mais rara da editora, morava com a família em Vila Luzita, subúrbio de Santo André. Ele fazia poucas páginas, com muito capricho. Seu brilho era aumentado por seu mistério. Em mais uma de suas brincadeiras, Cortez nos disse que Shima podia dar-se a esse esmero por ser filho de fazendeiro rico, plantador de tomates. Logo descobrimos que Shima era pobre, e na verdade preferia ganhar menos para apresentar um trabalho de maior qualidade. Depois de muito hesitar, ele decidiu aderir ao estúdio, talvez por perceber a importância de se comunicar mais. Fomos uma vez à sua casa, grande e antiga, cercada de muito verde, num final de ônibus. Seus pais foram muito simpáticos, mas um tanto calados, ao contrário do falante Shima.
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