Teor Letal: Histórias em imagens
Acima: Eadweard Muybridge foi pioneiro na projeção de imagens em movimento. Sua invenção, o "Zoopraxiscópio", exibia sequencialmente suas fotografias gravadas em discos de vidro.
por Paulo Rensie

Depois de lerem o artigo "Coincidências", de Olendino, algumas pessoas nos escreveram, surpresas após verem os desenhos de Manara baseados em fotos de Eadweard Muybridge. A surpresa não se originou do fato de Manara ter usado as fotos como suporte; todos sabem que isso é uma prática comum e lícita. A admiração dessas pessoas vinha do fato de não conhecerem até então o trabalho de Muybridge, o fotógrafo e dublê de cientista que revolucionou as técnicas e o uso da fotografia no final do século XIX. A obra de Muybridge teve impacto duradouro sobre duas mídias que estavam então uma no nascedouro, a outra por nascer: a moderna história-em-quadrinhos e o cinema.

Embora tido como americano de origem, Muybridge nasceu Edward James Muggeridge em Kingston on Thames, Inglaterra, em 9 de abril de 1830. Aparentemente obcecado pela idéia de tornar-se uma celebridade, alteraria mais tarde seu sobrenome para o mais sonoro Muybridge, e passaria a grafar seu prenome à maneira anglo-saxônica. Em 1850 ele já estava atuando como livreiro em San Francisco e 10 anos mais tarde, adotando outro nome teatral, Helios, começaria sua carreira de fotógrafo profissional. Essa era a época da fotografia em chapas de vidro, e o fotógrafo precisava ser antes de tudo um bom químico e depois disso um atleta para carregar seu pesado equipamento por grandes distâncias em terrenos muitas vezes acidentados (Muybridge especializou-se em fotos das paisagens do oeste americano). Então, em 1872, o ex-governador da Califórnia Leland Stanford contatou Muybridge para fotografar seu garanhão Occident em plena corrida. O objetivo era solver uma polêmica entre criadores que afirmavam ou negavam que um cavalo pudesse ter as quatro patas simultaneamente erguidas do solo durante o galope. Muybrige engenhosamente tirou as fotos com uma bateria de câmeras, criando a sequência mundialmente conhecida.

O fato de esse trabalho ter sido creditado inteiramente a Stanford feriu o ego de Muybridge, que passou a se dedicar febrilmente ao aperfeiçoamento de sua técnica. Com o tempo criou disparadores elétricos dotados de temporizadores para suas câmeras e aperfeiçoou o processo de sensibilização das chapas. Isso tornou possível registrar sequencialmente qualquer coisa que se movesse: animais, pessoas, tecidos esvoaçantes, jatos de água, vistos simultaneamente de vários ângulos. Em 1882 Muybridge fechou contrato com a Universidade da Pensilvânia, que passou a financiá-lo em seus estudos. O resultado foram milhares de fotos de pessoas e animais em quase todas as situações imagináveis. Ettiene-Jules Marey, que simultaneamente estudava o movimento humano na França, foi o primeiro a se decepcionar com a falta de método e caráter científicos no trabalho de Muybridge, o qual tendia mais para um teatro circense montado diante de uma parede quadriculada. O trabalho de Muybridge teria uma impacto bem maior no mundo artístico.

Foram pintores como Thommas Eakins e Frederic Remington quem mais se entusiasmaram com o trabalho de Muybridge, e o incentivaram. Não era mais preciso ser um extra-terrestre (como Leonardo da Vinci), para apreciar os detalhes do movimento dos animais e pessoas. Quem já viu as pinturas e esculturas de Remington, mostrando vaqueiros, cavalos e bisontes em ação, sabe a que me refiro.

Entre os admiradores de Muybridge estava o pioneiro das histórias-em-quadrinhos Arthur B. Frost (1851-1928). Na obra "The Human Figure in Motion", Muybridge agrupou as fotos em painéis, cada um sugerindo uma pequena história, da ternura do menino que leva flores à mãe à dramaticidade dos lutadores greco-romanos, passando pelo humor da mulher que surpreende a amiga no banho com um balde de água fria. Esse formato foi adotado nos quadrinhos de Frost e mais tarde nos de um seu grande admirador: Zenas Winsor McCay, criador de vasta obra, desenhista, animador e ator de Vaudeville, que ficou mais conhecido apenas como o criador de Little Nemo in Slumberland.

Página seguinte
Acima: decepcionado com o trabalho de seu contemporâneo Muybridge, o francês Ettiene-Jules Marey, com equipamento adequado e voluntários com roupas especiais, conseguiu essas impressionantes imagens dos movimentos humanos de caminhar e correr.