| Paulo Rensie: Que caso foi aquele, do Chico Buarque, que virou discussão acalorada numa das "rodinhas", durante o Primeiro Festival Internacional de quadrinhos?
Olendino: (Risos) O Chico que me perdoe! Eu falei que desenhava tão bem quanto o Chico Buarque canta! Não desfazendo do bom intérprete que ele é... mas se dependesse da voz, ele morreria de fome. O que eu queria dizer era que, assim como o Chico é um compositor que canta, eu sou um roteirista que desenha!
Fabrícia Faveiro: Parece que você mesmo não gosta do seu desenho?
Olendino: Não! Essa história de autodidata é muito bonitinha, mas é frustrante para quem tem autocrítica! Ofeliano uma vez me disse que meu desenho não era ruim, os materiais e técnicas empregados é que não eram adequados. Shima, que dá força e astral para todo mundo, também elogiou meu desenho, mas prefiro que as pessoas prestem mais atenção na história.
Fabrícia: Como é que você cria uma história?
Olendino: Quando tenho uma idéia, deixo amadurecendo. De vez em quando, dou uma "espiada" para ver se já dá para "puxar". A idéia é essa mesmo: é como puxar um fio: vem uma porção de idéias encadeadas, formando a história. Eu mesmo, no início, não sei no que vai dar. Às vezes é um processo rápido, mas há histórias que estão "amadurecendo" há mais de vinte anos. Com a idéia pronta, eu fazia um esboço rápido, decupando a história. Então fazia às avessas: fazia os requadros, os balões e legendas e, depois de tudo pronto, é que ia encher os quadros com os desenhos definitivos.
Paulo: Você mudou o tempo do verbo, de repente...
Olendino: É que não faço uma história em quadrinhos completa há mais de dez anos. Mas continuo "puxando os fios", senão a cabeça estoura, e faço ainda os esboços de histórias em cadernos. Sempre penso: "um dia ainda desenho isso..."
Fabrícia: A gente vê pessoas que admiravam seu trabalho falarem com muita saudade de suas histórias, do clima misterioso delas. Você era chamado de "Poeta do Terror".
Olendino: Não sei quem inventou esse apelido. Mas é recompensador notar que as pessoas apreciavam as histórias, e perdoavam os desenhos! Eu ficava furioso, quando menino, se alguém pegava minhas histórias e dizia; "só vou ver os desenhos"... Por isso a HQ é pouco valorizada, como literatura. Em 1981 eu mandei uma carta para a Vecchi, reclamando de erros na minha HQ "Piaga", que tinha sido letreirada lá. Vírgulas mudaram de lugar, alterando o sentido de sentenças inteiras, termos em tupi-guarani foram grafados de forma errada, mudaram de gênero, uma tristeza. O Paulo Guanaes, chefe da revisão, me disse que era a primeira vez que ele via um autor de quadrinhos se preocupar com a qualidade do texto. Fiquei besta!
Paulo: Infelizmente, é verdade. O roteiro acaba sendo uma coisa secundária, é só um suporte para belos desenhos...
Olendino: Veja os "clássicos" dos quadrinhos: o começo do Flash Gordon é um samba do crioulo doido! Um cometa ia se chocar com a Terra. O Prof. Zarkov contrói um foguete tripulado e vai se lançar contra o asteróide que deixou de ser cometa, para desviá-lo. Flash e Dale caem de pára-quedas perto do foguete e Zarkov os sequestra, acusando-os de serem espiões. O foguete se aproxima do asteróide, dá a volta e eles estão no planeta Mongo. Paf! Não se fala mais em cometa, nem asteróide, nem fim do mundo, Flash e Dale, que nem se conheciam, viraram noivos, e Zarkov nunca foi louco!
Paulo: Tinha também o Fantasma, com aqueles raríssimos "pigmeus indianos"!...
Olendino: É... a idéia era colocar as aventuras no misterioso "oriente". Era uma selva africana que ficava na Índia, perto de um golfo cheio de piratas chineses. Todos os vilões tinham que ser chineses, como Ming. Engraçado é que a filha do Ming, que ficou boazinha, era loura. Mas as primeiras histórias do Fantasma, tiradas essas ignorâncias étnico-geográficas, que os norte-americanos têm até hoje, eram bem legais, melhores do que o que se fez depois.
Paulo: Para você, qual é a melhor história-em-quadrinhos?
Olendino: No mundo, é o "Príncipe Valente", que para alguns "acadêmicos", nem é quadrinho. No Brasil, fico entre o Pererê, do Ziraldo, e o "Vizunga", do Flávio Colin.
Fabrícia: Há quem diga que o "Príncipe Valente" é "história ilustrada", porque não tem balões!
Olendino: É! Esse pessoal que quer viver no quintal dos Estados Unidos insiste que as HQ só começaram com o "Yellow Kid". Mas se pensarmos em arte sequencial, isso vem da pré-história, passa pelos egípcios, maias, tapeçaria de Bayeux, Wilhelm Busch, Ângelo Agostini... Os norte-americanos gostam de dizer que inventaram tudo... até o avião! (Risos gerais.) |