Teor Letal: Entrevista
Olendino, em Ouro Preto, fotografado pela esposa.

As histórias de Olendino estão aqui relacionadas, segundo a ordem de publicação:

- Trabalhos não publicados - Uma personagem constante nos trabalhos engavetados de Olendino é a "colegial de cabelos compridos". Ela teve vários nomes e viveu situações muitas vezes insólitas.

- Ru - Primeira história publicada. Dois prisioneiros tentam uma fuga espetacular no meio de um deserto. (Spektro nº 18, Vecchi, outubro de 1980, 5 páginas.)

"Restos".

- Restos - Um menino se recusa a sair dos escombros de sua casa, onde perdeu os familiares mortos por um deslizamento de terra. (Histórias do Além nº 19, Vecchi, fevereiro de 1981, 9 páginas.)

- Piaga - O jovem Maguari se torna o mais jovem piaga de toda a nação Tupi. Mas é preciso um evento sobrenatural para que isso se confirme. (Pesadelo nº 4, Vecchi, fevereiro de 1981, 17 páginas.)

- A Crueldade - Dentro da proposta da revista de mostrar o horror do cotidiano, uma pequena narrativa-denúncia. (Pesadelo nº 5, Vecchi, abril de 1981, 6 páginas.)

"Necrofilia".

- Necrofilia - O título original (Vingança) foi alterado pelo editor. Refugiando-se da chuva em uma cripta, um coveiro alcoólatra faz uma descoberta macabra. (Spektro nº 21,Vecchi, abril de 1981,14 páginas.)

- Além - Um homem descrente na vida após a morte tenta se convencer de que realmente não está morto (Pesadelo nº 6, Vecchi, maio de 1981, 5 páginas.)

- O Fim da Humanidade - Documentos descobertos num velho casarão levam dois rapazes a investigar a existência de um presídio secreto nos arredores de Ouro Preto. A fuga dos estranhos prisioneiros se transforma em catástrofe. (Spektro nº 22, Vecchi, junho de 1981, 18 páginas.)

- Cissalda - Caso único de história humorística, é uma paródia dos quadrinhos franceses dos anos setenta, com alusão a ícones dos anos 80 como a sexóloga Shere Hite e a defesa do direito feminino ao orgasmo (ou Smorgg!). (Pesadelo nº 7, Vecchi, Julho de 1981,16 páginas.)

"Chegaram os Tempos", parte 1.

- Chegaram os Tempos (Parte 1) - A colegial de cabelos compridos (agora chamada Isabel Maria) reaparece nesta história. E agora está grávida do demônio!(Spektro nº 23, Vecchi, agosto de 1981, 12 páginas.)

- Visgo - Já moça feita, Dadinha volta à fazenda na qual passou sua infância. Mas Pedrinho, seu antigo companheiro de brincadeiras, está mudado. (Sobrenatural nº 29, Vecchi, agosto de 1981, 6 páginas.)

(Continua na próxima página.)

por Fabrícia Faveiro, Paulo Rensie e Ana Luísa Herzog
Olendino nasceu em 1956, em Belo Horizonte, de onde só saiu para passear. Tem uma fixação pela década de 1950, como se a tivesse vivido integralmente (criou a ilustração da nossa capa no computador, recriando o estilo das capas dos pulps dos anos 50). É impressionante o modo como ele se lembra de coisas acontecidas quando era ainda muito criança, e mais impressionante ainda é vê-lo "lembrar-se" de coisas acontecidas quando ele nem havia nascido. Atualmente, trabalha como vigia noturno em uma escola infantil (o muro está sendo coberto de desenhos dele, nada terroríficos), e dedica o resto do tempo a outras atividades, para "ganhar o pão".
Olendino, ainda menino, foi leitor apaixonado do Terror dos anos sessenta. Depois de adulto, criou algumas histórias inesquecíveis do Terror dos anos oitenta.
Paulo Rensie: Que caso foi aquele, do Chico Buarque, que virou discussão acalorada numa das "rodinhas", durante o Primeiro Festival Internacional de quadrinhos?

Olendino: (Risos) O Chico que me perdoe! Eu falei que desenhava tão bem quanto o Chico Buarque canta! Não desfazendo do bom intérprete que ele é... mas se dependesse da voz, ele morreria de fome. O que eu queria dizer era que, assim como o Chico é um compositor que canta, eu sou um roteirista que desenha!

Fabrícia Faveiro: Parece que você mesmo não gosta do seu desenho?

Olendino: Não! Essa história de autodidata é muito bonitinha, mas é frustrante para quem tem autocrítica! Ofeliano uma vez me disse que meu desenho não era ruim, os materiais e técnicas empregados é que não eram adequados. Shima, que dá força e astral para todo mundo, também elogiou meu desenho, mas prefiro que as pessoas prestem mais atenção na história.

Fabrícia: Como é que você cria uma história?

Olendino: Quando tenho uma idéia, deixo amadurecendo. De vez em quando, dou uma "espiada" para ver se já dá para "puxar". A idéia é essa mesmo: é como puxar um fio: vem uma porção de idéias encadeadas, formando a história. Eu mesmo, no início, não sei no que vai dar. Às vezes é um processo rápido, mas há histórias que estão "amadurecendo" há mais de vinte anos. Com a idéia pronta, eu fazia um esboço rápido, decupando a história. Então fazia às avessas: fazia os requadros, os balões e legendas e, depois de tudo pronto, é que ia encher os quadros com os desenhos definitivos.

Paulo: Você mudou o tempo do verbo, de repente...

Olendino: É que não faço uma história em quadrinhos completa há mais de dez anos. Mas continuo "puxando os fios", senão a cabeça estoura, e faço ainda os esboços de histórias em cadernos. Sempre penso: "um dia ainda desenho isso..."

Fabrícia: A gente vê pessoas que admiravam seu trabalho falarem com muita saudade de suas histórias, do clima misterioso delas. Você era chamado de "Poeta do Terror".

Olendino: Não sei quem inventou esse apelido. Mas é recompensador notar que as pessoas apreciavam as histórias, e perdoavam os desenhos! Eu ficava furioso, quando menino, se alguém pegava minhas histórias e dizia; "só vou ver os desenhos"... Por isso a HQ é pouco valorizada, como literatura. Em 1981 eu mandei uma carta para a Vecchi, reclamando de erros na minha HQ "Piaga", que tinha sido letreirada lá. Vírgulas mudaram de lugar, alterando o sentido de sentenças inteiras, termos em tupi-guarani foram grafados de forma errada, mudaram de gênero, uma tristeza. O Paulo Guanaes, chefe da revisão, me disse que era a primeira vez que ele via um autor de quadrinhos se preocupar com a qualidade do texto. Fiquei besta!

Paulo: Infelizmente, é verdade. O roteiro acaba sendo uma coisa secundária, é só um suporte para belos desenhos...

Olendino: Veja os "clássicos" dos quadrinhos: o começo do Flash Gordon é um samba do crioulo doido! Um cometa ia se chocar com a Terra. O Prof. Zarkov contrói um foguete tripulado e vai se lançar contra o asteróide que deixou de ser cometa, para desviá-lo. Flash e Dale caem de pára-quedas perto do foguete e Zarkov os sequestra, acusando-os de serem espiões. O foguete se aproxima do asteróide, dá a volta e eles estão no planeta Mongo. Paf! Não se fala mais em cometa, nem asteróide, nem fim do mundo, Flash e Dale, que nem se conheciam, viraram noivos, e Zarkov nunca foi louco!

Paulo: Tinha também o Fantasma, com aqueles raríssimos "pigmeus indianos"!...

Olendino: É... a idéia era colocar as aventuras no misterioso "oriente". Era uma selva africana que ficava na Índia, perto de um golfo cheio de piratas chineses. Todos os vilões tinham que ser chineses, como Ming. Engraçado é que a filha do Ming, que ficou boazinha, era loura. Mas as primeiras histórias do Fantasma, tiradas essas ignorâncias étnico-geográficas, que os norte-americanos têm até hoje, eram bem legais, melhores do que o que se fez depois.

Paulo: Para você, qual é a melhor história-em-quadrinhos?

Olendino: No mundo, é o "Príncipe Valente", que para alguns "acadêmicos", nem é quadrinho. No Brasil, fico entre o Pererê, do Ziraldo, e o "Vizunga", do Flávio Colin.

Fabrícia: Há quem diga que o "Príncipe Valente" é "história ilustrada", porque não tem balões!

Olendino: É! Esse pessoal que quer viver no quintal dos Estados Unidos insiste que as HQ só começaram com o "Yellow Kid". Mas se pensarmos em arte sequencial, isso vem da pré-história, passa pelos egípcios, maias, tapeçaria de Bayeux, Wilhelm Busch, Ângelo Agostini... Os norte-americanos gostam de dizer que inventaram tudo... até o avião! (Risos gerais.)

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