Fotos de E. Muybridge.
por Olendino
O que Ana Luísa escreveu sobre direção de arte nas editoras me fez lembrar um incidente curioso: quando eu era adolescente, fui levado ao estúdio do desenhista Alberto Braz Constante (o ABC), que estava procurando um assistente. Ele correu os olhos pela minha quadrinização do seriado “Perdidos no Espaço” e teceu alguns comentários encorajadores sobre minhas noções de perspectiva e movimento. Depois me disse: “Você desenhou tudo isso de memória?” Eu respondi um “sim” fulgurante de orgulho e confiança. ABC meneou a cabeça negativamente e me mostrou sua prancheta recoberta de várias revistas de diversos gêneros: “Não pode ser assim, não! Você tem que pegar referências!” Essa revelação me deixou mais desconcertado do que o fato de não ter conseguido a vaga. Quem estava certo? A. B. Constante ou Alex Raymond? Eu tinha lido um depoimento do criador de Flash Gordon, no qual ele dizia que o principal atrativo da atividade de quadrinista era a liberdade de criar. Ele disse: “Um ilustrador trabalha com modelos e fotos; um quadrinista começa com uma folha de papel em branco e um monte de idéias na cabeça.” Mesmo sem ser um Alex Raymond (que por acaso morreu no mesmo ano em que eu nasci), acreditei nesta máxima. Mas, que diabo! As coisas nunca são simples assim! Muitas vezes o desenhista precisa dar uma “espiada” no trabalho dos outros, descobrir como uma situação foi resolvida. Às vezes ele “presta homenagem”, recriando uma cena clássica. Leitores atentos dos álbuns de Manara certamente repararam como ele readapta seguidamente as mesmas poses de seus personagens, compondo várias cenas a partir das mesmas fotografias de arquivo. Ainda recentemente houve certo rebuliço quando se descobriu que várias poses da Druuna, de Paolo Serpieri, foram feitas sobre fotos de uma modelo brasileira, publicadas na revista Playboy. Quando editava os quadrinhos da Vecchi, Otacílio Barros (o Ota), tinha uma frase pronta para os desenhistas iniciantes: “Dizer que o Maroto também copia, não vale!” Ele estava se referindo ao consagradíssimo desenhista catalão Esteban Maroto, campeão de “coincidências” e “homenagens” em seu trabalho. O risco para um desenhista novo é usar excessivamente o recurso das “espiadas”, despersonalizando-se e desvalorizando seu próprio trabalho. O que pensam os críticos das “espiadas”,”coincidências” e “homenagens”? Alguns, como Wellington Srbek, as condenam com veemência, chamando-as de plágio. Eu (embora suspeito, já que também desenhei, ergo "espiei"), prefiro chamar esses recursos, desde que ocasionais, de ”reciclagem”. A reciclagem permite que muitas situações difíceis sejam resolvidas, muitas histórias saiam dentro dos prazos, e que muitos desenhistas de poucos recursos (mas bons contadores de histórias) levem seu trabalho adiante.

(Olendino é tido como um bom contador de histórias, e adoraria possuir, como Manara, um exemplar de "Human Locomotion", de Eadweard Muybridge. Para saber mais sobre Muybridge e sua importância para os quadrinhos, leia o artigo Histórias em Imagens.)
Desenho de Esteban Maroto. 

Desenho de Robert Gigi.

Maroto (em cima) e Robert Gigi no clássico Scarlet Dream.
Dax, de Esteban Maroto.

Haxtur, de Victor de La Fuente.

Acima: Esteban Maroto, em Dax, o Guerreiro, e um trecho de Haxtur, de Victor de La Fuente. O espelhamento da cena é sintomático.
"A Grande Aventura", de Manara.
Acima: Eadweard Muybridge e Maurilio Manara.
Desenho de Leopoldo Sanchez.
Desenho de Auraleon.
Acima: Leopoldo Sanchez e Auraleon, ambos para a revista Eerie.
Desenho de José Ortiz.
Desenho de Auraleon.
Acima: José Ortiz e Auraleon (de novo), idem, idem. Observe as sombras.