Teor Letal: Carrancas
por Fabrícia
Tudo começou em 1971 (depois de Cristo, como ele costuma dizer), quando o adolescente Olendino leu em uma revista Petrobrás uma matéria sobre os "monstros marinhos" da costa brasileira. Lá estava uma imponente gravura do "homem-monstro marinho" capturado na capitania de São Vicente, em 1522. Qualquer um hoje em dia perceberia que o tal "monstro" era um prosaico leão-marinho. Mas a gravura era impressionante e acabou sendo usada anos mais tarde na página de abertura da segunda parte da HQ Carrancas. Essa história traduz um dos maiores pavores pessoais de Olendino: seu medo atávico das grandes massas de água. Ele conta: "Não me convidem para passear de barco. Não me deixem sozinho diante de lagoas ou na praia olhando para o mar. É provável que eu entre em choque. Não sei o que me apavora mais nas águas; se o mundo falso e invertido que elas refletem ou o mistério das coisas ocultas sob elas." E não precisam ser massas de água muito grandes, ele prossegue: "Uma vez, voltando do serviço após uma chuva, fui surpreendido por um trecho de rua alagado. O asfalto tinha se transformado num grande espelho, refletindo as nuvens tingidas de vermelho pelo pôr-do-sol. A calçada estava desimpedida, mas a idéia de caminhar quase cem metros junto àquela imagem me colocou em pânico. Dei uma volta enorme para chegar em casa, e a simples lembrança do que vira me deixava com as pernas trêmulas."

Em 1978 Olendino leu na revista Veja uma nota sobre o então chamado "Aqüífero Botucatu", um imenso lençol de água subterrânea existente no Brasil. (De lá para cá a extensão e a localização desse mar subterrâneo foram revistas, e ele agora é chamado Aqüífero Guarani.) Foi quando a história das carrancas do São Francisco e as lendas indígenas sobre as "gentes das águas" se juntaram na cabeça desse mineiro hidrofóbico.

Carrancas foi feita originalmente para a revista Inter Quadrinhos, da editora Ondas, em 1985. Antes de ser entregue, a revista foi extinta. No ano seguinte a primeira parte foi publicada por Ofeliano na revista Medo. Mais dois episódios saíram em uma edição especial da revista da Editora Press, que foi extinta logo em seguida. O último capítulo permaneceu inédito. Em 1994 Olendino refez a história, em duas partes, para a revista independente Teor Letal, que circulou apenas na região metropolitana de Belo Horizonte. A revista só durou um número... de novo o final não foi publicado. Bem, agora somos nós que tentamos vencer a "maldição" das carrancas. Se esse site sobreviver, brevemente publicaremos a inédita segunda parte.

As páginas que apresentamos são scans sem retoques dos originais, em tamanho natural. Você notará uma ou outra marca de lápis e as sombras do paste-up dos letreiros. Achamos melhor assim. Esperamos que você também goste.

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Capa de Eduardo Ofeliano para a revista Medo (Press Editorial) publicada em 1987.